“DE SAPO A PRÍNCIPE” TRABALHANDO AS DIFICULDADES DE APRENDIZAGEM, Por Carmen Silvia Carvalho

Há muitos anos atuo como psicopedagoga e como assessora da área de Português em escolas da rede pública e particular. Como assessora, posso, ao estar ao lado dos professores, acompanhar a angústia que as crianças que têm comportamentos inadequados, ritmo mais lento de trabalho e dificuldade para aprender geram nos professores e o quanto é difícil saber o que fazer e como lidar com elas em sala de aula.

Ao mesmo tempo, meu trabalho como psicopedagoga me permite entrar na alma dessas crianças e desses adolescentes e compreender o que se passa dentro deles, acompanhar suas angústias e compreender como sentem o modo como nós, os adultos, ensinamos e lidamos com eles. A conclusão que tirei a partir desses anos de trabalho nesses dois campos é a de que os dois se desejam: os professores querem muito “dar conta” dessas crianças e adolescentes, e eles, querem muito ser bem sucedidos. No entanto, nem sempre um sabe como atingir o outro. Por essa razão, ao escrever esse texto, meu desejo é poder fazer uma ponte, estabelecer uma interlocução entre o professor e essas crianças e adolescentes.

A escolha desse título – De Sapo a Príncipe – retirada da idéia dos Contos de Fadas, justifica-se porque, na verdade, o nosso desejo é que essas crianças que estão “encantadas” tornem-se príncipes, que superem as suas dificuldades e que nós possamos ter o prazer de vê-las crescendo felizes e aprendendo muito. Neste momento, em que a educação está voltada para a importância da inclusão, essa discussão torna-se muito relevante. Nem sempre, porém, sabemos como fazê-la.

Quem são os alunos “sapos”?

Para começar é preciso explicitar o que estou chamando de alunos “sapos”. Eu os organizei em três grandes grupos.

No primeiro grupo estão os alunos que nos trazem problemas de disciplina, não necessariamente de aprendizagem – alguns até aprendem e tiram nota – mas nos incomodam muito pela postura que assumem em sala de aula. Às vezes porque são alunos dispersivos (são os “viajantes”: o corpo está na classe, mas a cabeça sabe lá Deus por onde anda). Estes, ficam quietos, mas com sua dispersão impedem a troca necessária à aprendizagem, e nos deixam de mãos atadas. Alguns nos incomodam porque não entregam as tarefas: estão sempre devendo, nunca acompanham o pedido dos professores, perdem as coisas, nunca estão com o material, o lápis e a borracha desaparecem e isso incomoda na sala de aula.

Alguns nos incomodam porque têm uma relação de dependência muito grande, não conseguem fazer nada sem perguntar: é assim? É desse jeito? É isso que você queria? É aquela atitude repetitiva de estar sempre solicitando a confirmação do professor…

Outros nos incomodam porque não estão preocupados em fazer a tarefa, copiam dos amigos, estão ali sempre procurando o outro. Esta atitude não só os impede de aprender, como também gera no professor uma sensação de estar sendo enganado. Muitos professores lêem essa atitude de copiar em uma perspectiva moral, como se o aluno estivesse querendo enganá-lo, fazê-lo de bobo, e isso desperta no professor um sentimento difícil de ser vivido, às vezes até de raiva. Há também os que são agitados. São os alunos bagunceiros, estão sempre criando um clima de agitação dentro da classe. São muitas vezes até engraçados, afetivos, mas o professor tem que cuidar dessa agitação e ver como é que vai dar a aula!

Outros nos incomodam porque são agressivos, parece que estão sempre se defendendo, qualquer coisa que o professor faça ou fale, eles têm sempre uma resposta ou uma atitude negativa! Há os que são agressivos para com o professor, outros o são para com os colegas. Falam coisas agressivas e às vezes batem. Em geral esses agressivos são os mais difíceis de se lidar dentro da sala de aula, além de, freqüentemente, gerarem um sentimento de rejeição. Há também alunos que são grosseiros para lidar com os colegas ou com o professor… Não é bem uma agressividade, mas é uma grosseria, uma falta de sensibilidade, de respeito no trato com os colegas, e isso acaba incomodando na dinâmica da sala de aula.

Alguns incomodam porque querem ser o centro das atenções: parece que estão o tempo inteiro fazendo alguma coisa para chamar a atenção da classe para eles e o professor acaba perdendo o grupo, porque ele é o centro e não aquilo que está sendo trabalhado.

Há também os que quebram coisas, rasgam, entregam os trabalhos sujos e amassados. Essas atitudes costumam ser sentidas pelos professores como pouco caso para com a tarefa, para com aquilo que estão ensinando. É como se a agressão para com o material fosse uma agressão a eles.

Há outros que nos incomodam porque são mentirosos; o professor sabe que eles não assumem as coisas que fazem e essa sensação que a mentira gera – de estar sendo enganado – é algo que mexe com o professor. Há também os que somem com coisas, com coisas dos colegas, lápis, borracha, lanche…e criam com isso situações difíceis dentro da sala de aula.

Há outros que nos incomodam porque são preguiçosos, são displicentes, nunca se interessam, não querem fazer as coisas, e o professor preparou tanto, fez tantas atividades, empenhou-se e aquela displicência, aquele pouco caso, faz com que ele sinta como uma troca desigual: ele oferece o seu melhor para os alunos e recebe o desinteresse em troca. São coisas difíceis de se lidar.

Tem alunos que nos incomodam porque criam mal estar com perguntas, com colocações indevidas: eles falam com os colegas, fazem um comentário que cria um “clima“ dentro da sala de aula.

No segundo grupo temos alunos que podem não ter atitudes ou problemas de disciplina, mas que também nos incomodam porque erram demais e o professor está lá, empenhado, tentando ensinar, falando, explicando, dizendo de outro modo, mas parece que não aprendem, que erram sempre e o professor não sabe o que fazer para transformar aquele erro. Esses alunos geram, muitas vezes, um sentimento de impotência no professor.

Há outros que têm letra ilegível: não se consegue ler o que eles escrevem e isso nos dá a sensação de pouco caso, de que eles fazem de qualquer jeito…

Há alunos que não querem escrever: escrevem apenas o mínimo, são monossilábicos. O professor faz uma pergunta e a reposta é sim, não, talvez. O professor fez todo um trabalho, uma pesquisa, pede para ele registrar e esse registro vem sempre aquém daquilo que o professor esperava que viesse. Isso gera uma sensação de frustração muito grande!

Outros ainda, incomodam porque respondem qualquer coisa: parece que nem pararam para pensar. E isso é como se fosse uma negação daquilo que o professor está oferecendo, quer dizer, o professor preparou a sua melhor aula, está ensinando o melhor do que sabe, e o aluno responde de qualquer jeito: é como se ele estivesse negando todo aquele empenho do professor.

Alguns alunos incomodam porque eles nunca entendem o que professor explica: eu não entendi e você já explicou e eu ainda não entendi! Chega uma hora em que o professor já não sabe o que fazer: já explicou bem e aquela repetição daquele não entendi, não entendi, acaba afligindo.

Há os que incomodam porque deixam quase tudo em branco. Fazem tudo pela metade, tudo aos pedaços e também é difícil lidar com eles.

Tem os que rasgam tudo ou rabiscam os trabalhos. Entregam o caderno e está tudo amassado, tudo sujo, ele rabisca, é de uma aparência feia aquilo que ele traz, gerando uma sensação de pouco caso.

Há outros alunos que erram demais na ortografia (é impressionante como a ortografia é uma coisa que incomoda muito os professores e pais) e vem a cobrança social e o professor ensina regras, faz exercícios, faz isso, faz aquilo, mas eles continuam errando e deixando o professor muito aflito: o que eu faço com o fulano?

Há outros que nos incomodam porque interpretam mal, não entendem o que lêem e o professor precisa que eles compreendam. Parece que essa dificuldade de compreensão também emperra o desenvolvimento da aula e da matéria e é bem complicado lidar com isso.

Há um terceiro grupo de alunos que incomodam porque são diferentes no ritmo, são lentos demais, estão sempre atrasados para fazer as tarefas, copiar da lousa, terminar a lição. Acabam deixando as atividades sempre incompletas, porque o professor precisa seguir o ritmo da classe e não pode parar todos para esperar aquele mais lento.

Pelo menos alguns alunos com algumas dessas características eu acredito que cada professor tenha dentro da sua sala de aula. Com freqüência há alunos que apresentam duas ou mais dessas características ao mesmo tempo!

Esses alunos, esses sapinhos que estão aí, instalados nas salas de aula, são muito difíceis de lidar, principalmente pelo que mobilizam dentro do professor. Se vocês pararem para observar a hora do intervalo, na sala dos professores, de quem mais se fala? É dos sapos. Os professores acabam falando tanto deles porque, como querem transformar essas atitudes, querem transformar essa situação e não conseguem, o sentimento que se instala é o de incompetência, de eu não sei o que eu faço, de irritação muitas vezes…E o professor fala com o outro para ver se alguém dá uma luz.

Para podermos pensar, porém, o que fazer com essas crianças em sala de aula é preciso primeiro compreender porque eles agem dessa forma.

 

O que mobiliza essas crianças e adolescentes

a agir assim?

 

Vocês já pararam para pensar, quando um aluno lida com a aprendizagem dessa forma, quando age dessas maneiras, o que ele conquista, o que ganha? Pense antes de continuar sua leitura.

Na verdade ele só consegue conquistar coisas difíceis de serem vividas: ele conquista atenção (mas é uma atenção negativa, não de admiração ou respeito, como a que as pessoas desejam), ele ouve repreensão, muitas vezes é rejeitado pelo grupo, sente-se inseguro do amor do outro, tira nota baixa, é censurado em casa, leva castigo dos pais, leva castigo na escola, marca vermelha, suspensão, enfim, um aluno que lida desses jeitos só atrai para si coisas negativas. São todas coisas muito difíceis, coisas ruins para eles próprios. Por quê? Por que eles fariam isso, se isso não é bom, quer dizer, por que alguém iria querer provocar para si todas essas reações das pessoas que a cercam, dos adultos, se não são coisas boas de serem vividas? Essa que é a questão.

Eu tenho 18 anos de atendimento psicopedagógico. Nesses 18 anos o que eu posso observar é que, apesar de serem atitudes tão diferentes, na verdade são manifestações diferentes de uma mesma causa. A razão mais freqüente para que os alunos assumam essas posturas está ligada ao medo de errar e ao sentimento de auto-estima rebaixada. São vários fatores que geram isso, mas, independentemente das diferentes razões, esses alunos acabam sentindo que são muito ruins, que são muito incompetentes como pessoas e como alunos e a raiz dessas atitudes está nuclearmente ligada à questão da auto-imagem.

 

O medo de errar

 

Na nossa sociedade, o erro é visto como algo muito negativo, como a ausência de um conhecimento ou de uma competência e, por isso, quando ocorre gera um sentimento de menos valia: “Olha, você pensou que fosse capaz disso, mas se você errou é porque você não é do jeito que você pensou, você não é capaz disso que você imaginava”. O erro vem com um peso muito grande de negação, vem acompanhado de sentimento de frustração, de incompetência. Cada vez que o aluno percebe que não dá conta de algo, isso é vivido como uma negação, e essa negação vai produzindo essa auto-estima cada vez mais rebaixada. Fica muito difícil para o aluno viver essa sensação constante de não dou conta, não dou conta, não dou conta… Ele passa a achar que não dá conta mesmo. E quando ele começa a se enxergar desse jeito, já entra nas situações de aprendizagem como um perdedor.

Aprender é entrar no desconhecido. Só se aprende o que não se sabe. Toda situação de aprendizagem implica defrontar-se com o desconhecido, com o novo, com aquilo que ainda se vai desvendar. Entrar no desconhecido significa abrir a perspectiva de errar, exatamente porque é desconhecido, porque ainda não se sabe antecipar, porque ainda não se tem clareza do que está por trás daquela porta, ainda não se passou por ela. Portanto, aprender significa necessariamente ter que lidar com a perspectiva de errar. E se não se pode errar, como se pode aprender? Se ao errar há um sentimento de incompetência, então não há como passar por esta porta. E se, ao se tentar passar – porque aprender é inevitável, aprender é o próprio movimento da vida – há um erro e, junto com ele, o sentimento de incompetência, há também um sofrimento: a experiência de estar sempre errando leva à idéia de que não se é bom, de que não se é capaz.

Quando a criança vai desenvolvendo esse sentimento de auto-estima rebaixada, aparece também uma angústia muito grande que a faz lidar de diferentes maneiras com esse problema, dependendo do seu temperamento, do nível dessa auto-estima (do quanto ela está rebaixada ou não), que são as manifestações que os professores vêm dentro da sala de aula.

 

Como funciona esse mecanismo?

 

A situação da aprendizagem é complexa e o processo do aprender passa por algumas etapas.

Todas as pessoas vivem um estágio meio complicado no seu processo de aprendizagem. Ele é como a montagem de um quebra-cabeça: começa-se observando suas peças, embora não se tenha ainda idéia de como elas se encaixam. Gradativamente vai-se conseguindo perceber os encaixes até se conseguir formar todo o quebra-cabeça. Esse tempo de descoberta – de como as peças se encaixam – é um tempo de muita incerteza interna: ora há a sensação de entendimento, ora a de não entendimento, ora a de que ainda faltam coisas para serem entendidas, como acontece com todas as pessoas.

Ocorre que o aluno que já estava achando que não ia dar conta porque acha que não entende nada, porque se sente burro, ao entrar no processo de aprendizagem sente-se inseguro. O professor ao começar a explicar um novo conceito, por exemplo, introduz dados, informações, como se fossem as peças do quebra-cabeça. Nesse primeiro momento os alunos ainda não estão entendendo, porque ainda não é momento de entender mesmo. Mas, esse aluno que já entrou mal, achando que não iria compreender, pensa que apenas ele não está entendendo e vive essa situação como uma confirmação de seus medos. Isso gera angústia e ele deixa de olhar para fora, de prestar atenção na aula e começa a olhar para dentro, iniciando um monólogo: Está vendo como você não entende nada, não adianta você prestar atenção, você é burro “.. Esse primeiro momento é de dispersão. Ele vai para outro mundo, mais agradável do que aquele. Muitas dessas crianças são diagnosticadas como se tivessem TDAH (déficit de atenção e hiperatividade…). O professor continua a desenvolver a aula e as peças do quebra-cabeça estão começando a se encaixar para o restante da classe, mas não para aquele aluno que esteve “viajando”. O professor, ao perceber sua dispersão procura chamá-lo, atraí-lo para a aula com um comentário, uma pergunta, e ele volta a prestar atenção. Mas como esteve ausente, perdeu o fio da explicação e não compreende o que se explica. Nessa hora ele observa que os outros estão entendendo, só ele que não. Sua angústia piora e começa um segundo momento, que é físico. O professor está explicando e esse aluno começa a bater o lápis na carteira, olha para o lado, provoca o outro, deixa cair algo no chão, anda pela sala, é uma agitação física constante. Como ele sempre se agita e o professor – que já sabe que isso vai acontecer – chama a atenção desse aluno, ele pára e volta a olhar para o professor. Quando volta a prestar atenção, já não consegue entender mesmo e não agüenta a confirmação da própria incompetência. Isso gera um nível de angústia tão alto que fica difícil suportar, gerando um terceiro nível: é como se um ruído estivesse em seu ouvido, e ele precisasse parar com aquele ruído. Ele precisa emudecer o professor, fazê-lo parar de explicar. Como ele vai fazer isso? Provocando o colega ao lado, chamando o outro por um apelido que ele sabe que vai provocar reação, colocando, “sem querer”, o pé na frente daquele que está passando, fazendo-o cair e provocando aquele caos dentro da sala de aula… O professor tem que parar de dar aula para organizar o caos. Esse aluno emudeceu ou não o professor? Com certeza emudeceu. E como o professor reage? Parando a aula, dando o maior sermão nesse aluno, dizendo o quanto ele desrespeita os colegas, a sala de aula, fazendo anotações, mandando para fora, para o orientador, ou seja, confirmamos que ele é mesmo tudo aquilo que ele pensa de si. As nossas atitudes nesse momento confirmam tudo que está lá, dentro dele. Como há uma confirmação, cada vez a convicção de que ele é ruim é maior. Como a convicção é maior, o tempo de suportabilidade da angústia diminui. Este ciclo é cada vez mais rápido. E ele se torna aquela criança que de um ano para o outro vai ficando mais indisciplinada, mais agressiva, parece que não transforma e, se transforma, transforma para pior, vai ficando cada vez mais intenso. O aluno dispersivo em um ano, torna-se o agitado no ano bagunceiro seguinte, o no outro ano, o agressivo depois, o que evade da escola mais adiante.

Como eles nos incomodam, produzem a rejeição. E o mecanismo é muito complicado: como eles se sentem porcaria, acham que não merecem coisas boas, porque coisas boas são para pessoas legais, quem não é bom não merece receber coisas boas. Eles desejam o amor, mas provocam o afastamento. E nós, sem percebermos, lidamos com suas atitudes confirmando o que pensam sobre si mesmos, confirmando a rejeição que já fazem de si mesmos. Eles têm atitudes que afastam os outros deles, e nós temos atitudes que os afastam de nós.

Outra forma que as crianças usam com muita freqüência para lidar com esse medo de errar e com a auto-estima rebaixada é “controlar as variáveis”. Como esse outro grupo de alunos faz? Se o aluno está com a auto-estima muito rebaixada e não acredita que aquilo que pensa é bom, ele começa a duvidar do próprio pensamento. Imaginemos uma atividade dada em classe, por exemplo, em que deveriam ser respondidas 10 questões. Ele lê a primeira questão, pensa, pensa, e apaga, apaga. As crianças desse grupo são exímios apagadores. Às vezes elas erram a última palavra da linha e apagam a linha toda. Olham muito para o lado, estão sempre controlando o que acontece ao seu redor. Quando percebem que o amigo já está na quarta pergunta e elas ainda estão terminando a primeira, a angústia vai aumentando. Na medida em que duvidam mais de que conseguirão, apagam mais, controlam mais, retomam mais vezes o que já fizeram. Quando ainda estão fazendo a terceira questão, alguns começam a entregar a tarefa. Nesse momento eles desistem e entregam o trabalho incompleto. Esses são os alunos lentos, aqueles que os professores ficam desesperados porque o tempo deles é diferente dos demais, quer dizer, eles necessitam de um tempo que nem sempre o professor pode dar. Isso gera uma angústia muito grande, porque eles entregam tudo incompleto. E quando o aluno entrega o trabalho, o professor escreve: “Esforce-se mais”. Como psicopedagoga, se pudesse eu riscava essa expressão do vocabulário de todos os professores, porque isso significa “se você se esforçar, necessariamente terá um bom produto… se você não tem um bom produto é porque você não se esforçou”. Quem disse que isso é verdade? Quem disse que todas as vezes em que há um esforço, se consegue aquilo que se quer? Isso não é verdade. A medida do esforço não é a medida do sucesso! Não que, para se ter um bom produto, não tenha que haver empenho e esforço. Um exemplo pessoal: como todos os adolescentes, eu queria aprender a tocar violão. Todo adolescente quer aprender a tocar violão… E eu não tenho ritmo algum, desafino até para tocar a campainha da casa! Uma vizinha dava aula de violão e eu combinei com ela de aprender, para fazer uma surpresa para os meus pais. Eu tinha aulas e treinava muito. Quando achei que já estava tocando muito bem, eu convoquei a família para um recital: ninguém reconheceu a música de tão fora de ritmo… Em compensação, eu tinha um primo que nunca tinha tido uma aula de violão e tocava maravilhosamente. Hoje em dia ele é maestro. Quem se esforçava mais, eu ou o meu primo? Ele não precisava treinar para tocar uma música bonita: era um dom. Ele tocava! Simplesmente ele tocava… Obviamente depois do recital eu vi que não tinha dom para tocar violão. Não dava para comparar o meu produto com o do meu primo. Nem o esforço: o meu esforço era muito maior do que o dele.

Quando um aluno se esforça muito para fazer algo e o produto não corresponde à expectativa do outro e esse outro ainda lhe diz “se esforce mais”, a sensação é terrível: “Eu dei o melhor de mim. Se foi pouco, eu não tenho mais para dar…” Se este tipo de aluno deixa uma atividade incompleta não é porque não houve esforço, ele deu a alma. É porque ele não conseguiu mesmo. O professor nunca vai poder entrar na alma de uma criança para saber o grau de esforço que ela fez para chegar àquele produto. Por isso, os professores nunca deveriam escrever “se esforcem mais” porque correm o risco de estar dizendo: ”olha, o que você tem para me oferecer é menos do que eu o que eu desejo”.

Outro modo de manifestar essa auto-estima rebaixada é esconder o que pensa e sabe. Nesse caso, a criança que está com a auto-estima rebaixada pensa:“Se eu sou ruim, se aquilo que eu tenho para dizer não é bom, eu não quero que você descubra. Eu escondo de você o que está dentro de mim”. E como eles escondem? Eles têm duas atitudes: alguns são monossilábicos: ”eu digo o mínimo, para revelar o mínimo. Assim você não descobre as coisas que eu quero manter escondidas, porque eu acho que elas não são boas”. Ninguém gosta de mostrar aquilo que pensa que não dá conta. Isso é humano. Gostamos de mostrar para os outros aquilo que acreditamos que damos conta, que fazemos bem. Então, se o aluno acha que o que tem para dizer não é bom, ele não diz. Ele escreve muito pouco ou então ele obedece desobedecendo, que é uma outra atitude que ele assume. Como se obedece, desobedecendo? O professor quer que ele escreva, ele escreve, só que ele escreve de um jeito que o professor não lê ( a letra é um garrancho ilegível, ou pequena demais). O professor quer que ele faça a lição, ele faz, só que ele não aprende porque faz de qualquer jeito. Ele obedece, desobedecendo, que é um outro modo de lidar com isso.

Existem ainda outras formas. Uma delas, por exemplo, é o aluno desistir antes de tentar. Isso é muito comum. E nós, adultos, fazemos muito isso também. Quando estamos com muito medo de não dar conta de algo, arrumamos uma desculpa para que aquilo não aconteça. Desistimos antes de tentar.

Para exemplificar isso, gostaria de contar uma situação que aconteceu com uma aluna minha e que eu acho que ilustra bem essa forma das crianças lidarem com o medo de não conseguir fazer algo: eu estava trabalhando com a Bia. A Bia era uma menina de nove anos de idade que, por uma série de razões, tinha desistido de aprender e não queria mexer com nada que tivesse algo a ver com inteligência, só queria fazer coisas de crianças de três anos. Nós já estávamos trabalhando há algum tempo e a situação era complicada. Ela era muito inteligente, só que tinha plena certeza da sua incompetência. Um dia ela aceitou jogar pega-varetas. Pega-varetas é um jogo que se pode jogar com muita inteligência e tem todo um trabalho de matemática que pode ser feito, mas a Bia não queria jogar assim, ela queria jogar como crianças pequenininhas jogam. Soltamos as varetas, eu tirei, ela tirou, eu tirei, ela tirou. Eu tirei muitas varetas e então eu vi que a Bia olhou para as minhas varetas e desmontou o jogo. Não falei nada, soltamos as varetas novamente e eu, de propósito, joguei bem, joguei para tirar muitas varetas. Ela olhou e desmontou o jogo. Quando ela desmontou pela terceira vez, eu falei:

– Bia, você reparou que a gente não consegue jogar nenhuma partida até o fim? O que será que está acontecendo? Você sabe?

Ela, na maior simplicidade respondeu que não sabia. Disse-lhe, então:

– Eu estou aqui pensando se o que está acontecendo não é o seguinte: você olha, vê que eu tenho muitas varetas, fica duvidando que possa ganhar de mim, desmonta o jogo e ninguém fica sabendo quem ganhou e quem perdeu. Você acha que isso pode ter sentido?

  • É, quem sabe…
  • Eu quero deixar uma coisa bem clara – disse-lhe – quem duvida que você possa ganhar de mim, no pega-varetas, é você, porque eu não tenho a menor dúvida de que você é capaz! Eu sei que você é capaz de jogar de igual para igual comigo…Aliás, eu te desafio a jogar uma partida até o final. Você acha que você agüenta esse desafio?
  • Está bom, vamos lá.

Começamos a jogar e ela ganhou e ficou muito feliz por poder ganhar. Jogamos uma segunda partida, ela ganhou novamente. Jogamos uma terceira partida, eu ganhei. Ela agüentou perder porque, logo da primeira vez que ela ia desmontar eu falei: “Bia, até o fim!!!” E ela se segurou e agüentou perder sem desmontar o jogo. Quando nós jogávamos a quarta partida, eu falei para ela:

  • Bia, eu estava aqui pensando se isso que aconteceu no pega-varetas não acontece com outras coisas na sua vida, porque você tem tanta certeza que não vai dar conta que você desmonta antes de tentar!

Ela era muito engraçada, pôs a mão na cintura e falou:

  • Quem foi que contou para você que eu rasgo a lição de casa quando eu não sei fazer?

Ninguém tinha contado. Eu não sabia que ela fazia isso. O pensamento dela era o seguinte: Eu estou tão cansada de fracassar, eu tenho tanta certeza de que eu vou fracassar de novo, que é melhor eu destruir a situação do que viver o fracasso. Assim eu não vou ficar sabendo se eu dava conta ou não daquela lição. Ela faz a mesma coisa que fez com o pega-varetas.

São aquelas crianças que repetidamente, por exemplo, não fazem a lição e estão sempre justificando que foi a mãe que derrubou molho de tomate, o cachorro pegou a folha, o irmãozinho… Está claro que o que eles estão contando não é verdade e o professor escuta todas essas desculpas como uma mentira do ponto de vista moral. Essa criança é mentirosa, eles pensam. E ficam muito bravos, porque o sentimento é um sentimento de julgamento moral daquela mentira. E, no entanto, essa criança age dessa forma somente porque não agüenta mais fracassar.

Uma outra forma de se lidar com essa auto-estima rebaixada, com esse medo de errar, é não entrar em contato verdadeiro com os objetos de conhecimento. Nesses casos, os alunos estão sempre na superfície. Há diversas maneiras que eles encontram para não entrarem em contato com os objetos de conhecimento. Uma delas é estarem com os pensamentos em outro lugar: Eu estou aqui, mas a minha cabeça não. Como eu estou em outro lugar, eu não vivo a angústia de não estar entendendo.

Outros, não entram em contato efetivo com os objetos de conhecimento, brincando. Alguns alunos são muito simpáticos, amigos de todos, mas estão sempre fazendo “gracinha”. Eles não são agressivos e também não é algo relacionado à indisciplina. Estão sempre fazendo uma piadinha, um comentário aqui, uma coisinha ali, só que nunca estão de verdade com a alma na situação. É outro modo de não entrar em contato efetivo com o conhecimento e, conseqüentemente, não viver a angústia. Outro modo é fazer de qualquer jeito: eles fazem, mas não pensam no que estão fazendo. Assim, não vivem a angústia de não entender porque nem tentam. Fazem, sem fazer de verdade.

Há ainda outras formas de manifestação, mas a maioria dos sapos já está incluída aqui, nesses modos de se lidar com o problema. Podemos ver que, apesar de tão diferentes, todas têm a mesma raiz, a auto-imagem rebaixada.

Cabe agora uma pergunta: Por que as crianças ficam com essa auto-estima tão rebaixada? Quais são as causas mais freqüentes para isso acontecer?

Muitas dessas causas têm origens na família. Pais muito punitivos, por exemplo, geram auto-estima rebaixada. A criança ainda não conhece o mundo e suas regras. A vida da criança pequena é um aprender a cada segundo! Mas, se os pais são muito punitivos, cada vez que ela tenta fazer alguma coisa, ela é punida porque não fez do modo como deveria ter feito. No entanto, ela desobedeceu sem se dar conta disso. E, quando os pais a punem, acabam gerando um medo muito grande na criança de não dar conta, de errar, de arriscar. E se não se pode errar, não se pode aprender. E porque vão ficando proibidas de aprender, desenvolvem todas essas atitudes reativas. É importante observar que essa punição pode ser física ou verbal. Quando ela é física, é mais evidente. Mas há pais que passam mensagens de menos valia para seus filhos no modo como falam com eles: Só podia ser você! Você não consegue fazer nada de bom?

O inverso também é verdadeiro. Às vezes o pai e a mãe superprotegem os filhos. A superproteção é diferente da proteção, porque proteger é bom, superproteger é que não é. Isso acontece quando os pais têm tanto medo do sofrimento do filho, que se antecipam e fazem tudo por ele. Pensam por ele, acabam escolhendo por ele. E como essa é uma forma intensa de amor, é muito difícil para esses pais perceberem que, quando eles pensam e agem pelos filhos, passam junto uma mensagem de eu não acredito que você seja capaz de decidir, eu não acredito que o modo como você faça seja suficientemente bom. Isso acaba gerando uma insegurança enorme na criança, uma dependência muito grande do adulto e uma auto-estima muito rebaixada. Os pais elogiam os filhos, dão carinho, dão tudo…Dão mais do que deveriam e não entendem: se eles dão tudo, como é que o filho não está indo bem na escola? Como é que o filho tem um comportamento inadequado se eles fizeram tudo? È muito comum, por exemplo, quando uma criança vive uma situação de saúde complicada, uma doença séria, uma cirurgia quando pequena, os pais ficarem com um medo excessivo de perder o filho e passar a superprotegê-lo.

Às vezes a superproteção tem origem numa rigidez da mãe ou do pai – ou dos dois – em lidar com o erro: como não agüentam ver o errado, não agüentam ver mal-feito (em relação à possibilidade do adulto), acabam fazendo pela criança. Essa superproteção está ligada a uma impossibilidade da mãe e do pai de agüentar o erro. Por exemplo: a criança tenta amarrar o tênis, demora, os pais estão com pressa, e não agüentam esperar. Além disso, ela amarra daquele jeito torto que criança amarra e o que a vizinha vai pensar? Que eles não são bons pais. O menino escolheu a roupa que vai usar, mas as cores não combinam. A menina coloca quinhentas bijuterias, daquelas compradas na feira, todas ao mesmo tempo. Como deixar a criança escolher e sair assim? O que a titia vai pensar? Que os pais não cuidam do seu filho! Escolhem, então, as roupas, esfregam, enfeitam, enfim, fazem tudo pela criança e ela vai ficando passiva, porque vai aprendendo que o jeito dela nunca é suficientemente bom, que ela sempre faz errado em relação à expectativa do adulto. E os pais jamais suspeitam disso, porque agem assim por absoluto amor. É um amor até exagerado, é um modo de amor que não é nutriente.

Muitas vezes a auto-estima rebaixada vem de uma não aceitação, por parte dos pais, de como a criança é. Existe, muitas vezes, a comparação com os irmãos: o filho mais velho é o filhinho que a mamãe pediu para Deus. O segundo, em compensação, faz tudo errado: quebra as coisas, faz bagunça, deixa o quarto de ponta-cabeça. Essa não-aceitação muitas vezes é inconsciente e relacionada ao momento de gestação ou a outros problemas. O mais difícil de ser pai e mãe é que eles erram pensando que estão acertando e quando percebem que aquele modo não era bom, já está feito e eles se sentem muito culpados. E isso não tem a ver com culpa, tem a ver com lucidez. Com exceção de alguns casos patológicos, cada pai e cada mãe têm a intenção de ser o melhor possível, assim como cada professor entra na sala de aula todos os dias acreditando que vai dar a melhor aula possível. Hoje eles podem achar que não fizeram a melhor escolha possível, mas naquele momento eles acharam que era e só fizeram porque acreditavam que aquela escolha era boa.

O que acontece é que muitas vezes os pais não suportam perceber que o filho não é aquilo que sonharam, não é o sucesso que eles desejariam que fosse e isso é complicado porque como o filho intui esse sentimento, ele tem atitudes provocativas, e a reação dos pais reforça esse sentimento: De novo!!! Só podia ser você. Às vezes a criança leva um trabalho muito bom, os pais olham e comentam: Nossa, que bárbaro, foi você mesmo que fez? E a mensagem que passam com esse comentário é: De você eu jamais esperaria uma coisa boa, de você eu só espero coisa ruim. Isso não é um elogio não… Quando os pais dizem: Dessa vez você conseguiu, estão, na realidade, dizendo: Todas as outras vezes você não consegue. E com esses comentários, não intencionais, vão gerando toda uma auto-estima rebaixada, todo esse medo de errar.

Experiências repetidas de fracasso na escola também geram auto-estima rebaixada. Por exemplo, a criança está aprendendo a escrever. Ela escreve da maneira que consegue. O professor corrige, corrige, corrige. Em mais de vinte anos trabalhando em educação, nunca encontrei um aluno e um professor que soubessem dizer o que o aluno sabe ou que o próprio aluno soubesse dizer o que sabe. Eles só sabem dizer o que não sabem. Qual o professor que pega um texto que um aluno produziu e escreve assim: Fulano gostei muito de ler a sua redação porque você sabe colocar a pontuação no lugar certo, porque você sabe colocar letra maiúscula no lugar certo, porque você já tem estratégias para evitar a repetição e das 320 palavras que você escreveu, você acertou 302 e isso mostra que você sabe muito da ortografia das palavras. Algum dia vocês viram um professor fazer isso? Via de regra o que o professor diz é: A pontuação está inadequada, você não colocou letra maiúscula, a letra não está boa. Quer dizer, o aluno só entra em contato com o que ele não sabe. Exemplificando: Eu dava assessoria para as escolas onde meus filhos estudavam e estava justamente trabalhando essa postura dos professores ao ler os textos dos alunos e discutia com eles como redigir um bilhete para os alunos. A professora do meu filho, que estava na terceira série naquela época, falou: Carmen, você vai ficar orgulhosa de mim, você precisa ver os bilhetes que eu escrevi para as crianças. Primeiro eu elogiei para eles ficarem felizes e só depois eu coloquei o que faltava”. Quando eu cheguei em casa, meu filho estava com a redação na mão e falava: Pois é, mãe, bilhete de professor sempre tem mas… Antes do mas eles mentem, depois do mas eles falam a verdade. Quer dizer, duas leituras completamente diferentes da mesma situação! Muitas vezes, quando a criança já tem alguma fragilização, o modo como o professor lida com ela confirma e acentua esses sentimentos.

Ao punir o erro, o professor também o proíbe e, proibindo-o, automaticamente proíbe a aprendizagem. Os alunos param de perguntar e passam a reproduzir somente o que o professor quer que eles digam. E passam a ficar dependentes: É assim que você queria, é desse jeito que era para fazer? Eles estão atendendo ao outro e não a si próprios. Assim como os pais, muitas vezes a escola não percebe que age dessa forma.

Eu tive uma experiência com uma aluna que estudava numa escola perto da casa onde ela morava e adorava ir às aulas. A escola foi vendida e a pessoa que comprou tinha uma maneira de pensar completamente diferente da dona anterior e até que os pais percebessem isso, o estrago estava feito. Depois de três meses essa menina não conseguia mais aprender: ela estava com cinco anos e dizia que só podia escrever se soubesse escrever certo e como ela ainda não sabia, então ela não poderia mais escrever. Nem desenhar, que ela gostava tanto, ela não queria mais. Ela só queria pintar desenhos feitos. Mas faz o seu desenho, você desenha tão bem! Não mamãe, eu não sei desenhar, eu vou pintar o desenho. Foram anos para arrumar o estrago! Ela estacionou na concepção de escrita, ficou insegura e não conseguia mais acreditar em si mesma.

O modo como a escola lida com o erro, abre ou fecha a possibilidade dos alunos pensarem, arriscarem, de terem uma leitura de mundo, uma expressão pessoal, e isso é muito importante para não produzir problemas de aprendizagem, que acabam levando a esse medo de errar, esse medo de arriscar, essa auto-estima rebaixada. E a auto-estima gera todos aqueles comportamentos.

É importante compreender dessa forma, porque isso possibilita uma outra ação. Normalmente o que os pais e os professores sentem é que a criança não aprende porque faz bagunça ou é desatenta. A bagunça e a desatenção são, então, a causa da não aprendizagem. Se essa é a causa, então como ajudá-la a aprender? Enrijecendo na disciplina! Mas o que eu estou tentando mostrar é que a bagunça e a desatenção são sintomas, são manifestações. A causa é o medo de errar, é a auto-imagem rebaixada. È como dar Novalgina para abaixar a febre e não perceber a infecção caminhando… Essas crianças precisam de um outro remédio para conseguir reverter este quadro. O que fazer para ajudá-las dentro da sala de aula, sendo que não se trata de lidar apenas com um aluno, como acontece na clínica, mas com vários e tendo que dar conta do conteúdo?

Algumas atitudes são do plano da postura do professor e outras são do plano pedagógico. A primeira coisa é mudar o sentido do erro. É poder compreender o erro como parte intrínseca da aprendizagem, não como negação, não como ausência do conhecimento, mas é parte inerente à construção do conhecimento. É preciso também mudar o modo como o professor sente essas crianças: perceber que quando elas agem dessa forma, não estão fazendocontra nós. Estão fazendo contra elas mesmas e não é uma questão pessoal. O professor sente–se agredido, menosprezado, incompetente enquanto que, na realidade, a agressão é contra elas mesmas, a incompetência que elas sentem é delas… Deslocando o foco, o professor pode começar a perceber que aquele aluno, que é o mais terrível da sua classe, é também o mais frágil; que o mais agressivo, o mais bagunceiro, aquele que enlouquece qualquer um, usa aquela arrogância como um escudo protetor e que, na verdade, ele se sente ameaçado por qualquer coisa. Se o professor conseguir olhar e significar de outra forma as manifestações desse aluno, ele começa a pensar em outras maneiras de lidar com ele. Isso é o mais difícil: mudar o sentido das atitudes desses sapos para poder transformá-los em príncipes.

As outras coisas são simples, têm a ver com desequilibrar a balança para o outro lado. O que significa isso? Todas as pessoas têm coisas que gostam em si, que acham que dão conta bem e coisas que não gostam e acham que não dão conta bem. Esse lado das coisas que as pessoas gostam é o lado luz e as coisas que as pessoas não gostam em si é o lado sombra. Todas as pessoas têm luz e sombra. Qual é o normal? Que a luz seja mais intensa que a sombra, porque é dela, é dessa luz das coisas que as pessoas gostam e se sentem bem, que tiram energia para transformar a sombra ou aceitar um limite. É como se a força dessa luz iluminasse a sombra. Esses alunos de quem nós estávamos falando, por uma série de razões, tiveram suas balanças desequilibradas. O lado mais intenso que eles enxergam em si mesmos é a sombra. E essa sombra obscurece a luz. É como se eles não conseguissem mais perceber do que são capazes. Eles fazem dez coisas certas e uma errada. Aquela errada anula as dez. Eles desconfiam do elogio, porque eles acham que não merecem… Aliás, nós, adultos, também fazemos isso. Estamos sempre nos comparando com o melhor: estamos na 3ª aula de tênis e nos comparamos com o Guga. É uma comparação de coisas desiguais. Haveria igualdade se essa comparação fosse feita com o Guga na 3ª aula de tênis dele e não com o campeão… Um professor faz 40 coisas excelentes em sala de aula e, em determinado momento, lida de modo inadequado com uma situação. Volta para casa arrasado, duvidando de sua competência…São mecanismos complexos, e, nesses casos, sempre a sombra é que está escurecendo a luz.

O que seria a postura de transformação desse olhar? A criança não consegue fazer isso sozinha: ela precisa da ajuda de um adulto e quanto mais adultos estiverem ajudando, melhor e mais rapidamente essa transformação se produzirá. Eu defino o trabalho do psicopedagogo como o de enxergar a luz que existe no outro e o de revelar essa luz para a própria pessoa. Não se cria a luz, a luz é da pessoa! Por alguma razão, porém, ela não enxerga mais. Esse seria o trabalho. Iluminar a luz e não a sombra nas situações de sala de aula.

Por nossa herança cultural enxergar o erro do modo como falávamos, em sala de aula sempre se evidencia a inadequação. O professor, nesse caso, assim como o psicopedagogo, deve evidenciar a luz, a adequação.

Como fazer isso em sala de aula? Existem algumas estratégias, algumas coisas que o professor pode fazer e que sempre têm um efeito bom. Mas, percebam, tudo o que vou trazer como algumas sugestões, na verdade são sempre a mesma coisa: modos diferentes de iluminar a adequação, a luz que há nas atitudes e situações da sala de aula. É importante que o professor perceba isso para que possa saber como criar outras situações em seu cotidiano.

Por exemplo, todo professor quando dá alguma atividade para os alunos fazerem fica circulando pela classe. Dois alunos o preocupam bastante. Ele viu que um desses alunos errou nove perguntas, mas acertou a terceira. O outro errou oito, mas acertou a quinta e a oitava. Na hora da correção coletiva, “por acaso”, é justamente a terceira que ele pede para aquele aluno. O que acontece? Esse aluno já fica com dor de estômago, porque ele sabe que vai errar e que o colega vai gozar (eles são absolutamente cruéis uns com os outros, especialmente os adolescentes). O fulano, professora, que só fala besteira?Normalmente, o que o professor faz? Ele tira o holofote daquele aluno que está adequado e coloca o holofote na inadequação. Nesse momento, o professor ignora o comentário maldoso do colega e mantém a pergunta para o aluno. Ele responde e acerta (o professor já sabia que estava certo):Excelente resposta! Gostei muito do modo como você respondeu. Por favor, vá para a lousa e escreve para todo mundo copiar. Aquele que gozou se sente lá embaixo. E o professor vai pingando: é em Matemática, é em Português, daqui a pouco é em História depois vem Geografia.

O professor nunca deve expor o aluno ao erro. Sempre que ele acertar alguma coisa, holofote de 1000 watts. O erro deve ser ignorado. É como se aquele acerto público iluminasse as nove respostas erradas. Chega uma hora que esse aluno começa a pensar: será que eu sou tão burro mesmo? Eu acerto toda hora… Quando ele começa a duvidar da burrice, começa a diminuir a tensão. Quando a tensão diminui, ele pode pensar com mais eficiência. Quando ele pensa com mais eficiência começa a pensar mais e passa a acertar duas, três, cinco idéias… Os colegas começam a enxerga-lo diferente: será que ele é tão burro quanto eu pensava? E param de gozar e começam a chamá-lo para participar da equipe… Esse aluno começa, então, a reverter a ação.

São raras as crianças que têm um problema real de rebaixamento cognitivo. 99% das crianças que não vão bem na escola são crianças inteligentes e capazes de aprender. Elas são é proibidas de aprender. Quando se abre a porta elas entram. É uma questão de pensar: o que o professor está iluminando: a luz ou a sombra? Por exemplo, quando eu estava em sala de aula eu me lembro bem de um aluno que era rejeitadíssimo pela classe toda. Era de uma timidez absoluta! Um dia ele fez um comentário que nem era procedente com o que estava sendo discutido. Quando ele abriu a boca pela primeira vez, o outro caiu por cima. Não era hora de colocar o holofote na inadequação! Eu disse: muito interessante o seu comentário, fulano e falei uns 15 minutos a respeito disso: puxei para a filosofia, história, usei termos difíceis… Os alunos não entenderam metade da explicação. E o fulano surpreso, pois nem ele imaginava que sabia tudo aquilo. O outro que havia gozado aquele colega, se sentiu deste tamanho.Com certeza, da próxima vez ele vai pensar dez vezes antes de fazer qualquer comentário. E aquele que tinha medo de perguntar e fazer papel de bobo (porque a pergunta era boba), passou a ficar mais corajoso para perguntar.

Normalmente o que o professor faz é criar um clima de animosidade, de rixa. Quando um colega goza o outro e o professor passa um sermão, o que acontece é ele ficar com raiva do fulano que fez ele levar o pito. É assim que eles funcionam. Mudando o foco, o professor vai, aos poucos, tirando esse clima. Muitas vezes, não é o professor que bloqueia, é a própria dinâmica da classe. Com esse tipo de estratégia, o professor acaba produzindo uma mudança na dinâmica que se torna muito mais favorável para o conhecimento poder fluir, que é a dinâmica da aceitação, uma vez que ninguém se esforça se não é aceito.

Outra coisa que o professor pode fazer e que é simples: ao escolher estratégias, pensar o que está sendo iluminado: a luz ou a sombra. Por exemplo, o ditado é uma atividade que costuma causar horror nas crianças porque elas se sentem postas à prova, sempre vão mal. Não é raro eu perguntar para os professores: Que critério você usou para escolher as palavras do ditado? E ouvir como resposta: Eu escolhi aquelas que eles têm dificuldade. Vejam o quanto essa visão de ensinar acaba sendo muito perigosa. Imaginem que uma criança escreveu uma palavra que tenha dez letras. Nove letras ela escolheu com adequação e uma não: nove acertos não têm força suficiente para anular um erro, mas um erro anula nove acertos. A criança tem a sensação de que não sabe nada, quer dizer, ela só entra em contato com a sua ignorância e não com o seu conhecimento. Como se poderia fazer a mesma coisa, apenas mudando o olhar na hora da estratégia? Dizendo para as crianças: agora eu vou propor um jogo. O jogo é o seguinte: eu vou ditar essas palavras para vocês, e depois vocês vão comparar a forma como vocês escreveram com a forma que o autor escreveu. Cada letra que você escolher igual à do autor você ganha um ponto. Se o professor ditou 400 letras e ela acertou 372, eu pergunto: há mais conhecimento ou mais ignorância? Muito mais conhecimento! Só que se essa criança errou 28 palavras, ela teria tirado uns dois no ditado e chegaria à conclusão de que é ignorante, incompetente. Em compensação, quando elas fazem a contagem, comemoram bastante porque fizeram muitos pontos! O próximo passo seria dizer: agora vocês se reúnam em equipes e vejam as letras que vocês escolheram erradas, que vocês erraram pela mesma razão e tentem descobrir o que vocês poderiam ter pensado para acertar. Elas focam e vão relacionar regras, ou usar outros recursos, dependendo da série em que estão. A luz está no conhecimento e a ignorância é transformada em trabalho. O que importa é descobrir algo para pensar da próxima vez e não punir porque dessa vez não soube pensar. Para transformar é preciso descobrir o que crianças não estão vendo. Assim se transforma a ignorância em trabalho e não em punição. Isso muda toda a perspectiva. Eu me lembro de uma professora de rede pública que me ouviu dando este exemplo numa conferência e depois me procurou dizendo que tinha feito na classe dela e que as crianças queriam fazer ditado todos os dias. Eu acho que o ditado passou a ser o momento em que elas entraram em contato mais efetivo como o conhecimento que elas tinham. Inclusive eu uso essa estratégia em clínica. Quando as crianças chegam eu pergunto:

  • Porque você está aqui?
  • Porque eu escrevo mal.
  • É mesmo? E quem disse isso para você?
  • A minha mãe, a minha professora.
  • Olha, eu só acredito vendo!

Sempre esse mal, em geral, é a ortografia, que é a grande vilã. Quando a criança entra em contato com o seu conhecimento, ela tem condições de mostrar o que tem dentro dela. Tem muita escola que me pergunta o que eu ensinei para determinada criança em função da melhora que ela apresenta. E nem sempre, no atendimento, eu trabalho com linguagem escrita. Eu só dou permissão para ela mostrar o que sabia. Aquilo que ela tinha aprendido dentro da sala de aula estava guardado dentro do cofre, eu só abri a tampa. Para isso é preciso perceber que o erro não é marca da ignorância. Veja, quando uma criança escreve a palavra alemãn é um erro típico, característico de alunos de primeira série. O que essa criança está nos dizendo? Ela está dizendo: Olha, eu já descobri que o nosso sistema é alfabético, que na Língua Portuguesa existem sons orais e sons nasais. Eu já descobri que sons nasais são marcados para diferenciar os sons orais. Eu sei que as marcas de nasalização no português são ‘m’ no final de palavra ou til. Eu sou capaz de aplicar essa lei geral da língua na palavra alemã especificamente e perceber que ela tem sons orais e sons nasais. Eu sou capaz de discriminar que o som nasal na palavra ‘alemã’ é na última sílaba e eu não sei como escolher qual das marcas eu coloco. Ela diz seis coisas que sabe e uma coisa que não sabe. Então, é fundamental iluminar o conhecimento e isso é diferente de elogiar. Principalmente para a criança que tem a auto-estima rebaixada, porque ele desqualifica o elogio para manter sua auto-estima rebaixada. A diferença entre o elogio e o conhecimento é que o elogio está em quem elogia, não está no objeto. Agora, o conhecimento está no objeto. Se o professor pediu para seu aluno resolver a equação de matemática e ele resolveu, é porque ele sabe. Não tem como desqualificar. Não que não se deva elogiar, elogio é sempre bom! O que eu estou querendo dizer é que, para estas crianças, o elogio não tem muito efeito. O que vai realmente produzir a transformação é o evidenciar o conhecimento.Todas as oportunidades em que o professor puder mostrar para este aluno que ele sabe algo, holofote de 1000 watts, mesmo que tenha 300 coisas que ele não saiba.

Se os professores forem persistentes eles vão produzindo transformações. Quando esses alunos começam a se aceitar, começam a enxergar a própria luz, mudam a sua atuação na classe, mudam a aprendizagem, mudam a própria forma de se vestir. Eles ficam mais vaidosos, é um outro jeito de estar…

 

 

Perguntas

Muitas vezes o problema da criança está na própria família. Quando isso acontece você acha que é suficiente a escola adotar essas estratégias, quer dizer só o trabalho da escola basta para transformar essas crianças?

É sempre necessário se ter uma noção de real. Muitas vezes eu sinto que os professores vivem ou num extremo ou no outro: ou têm a sensação da impotência, de que não conseguem fazer nada ou têm a sensação da onipotência, de que têm que dar conta de tudo, sendo que o real não é nem a impotência nem a onipotência. Nem sempre essas estratégias são suficientes para você transformar. Elas sempre auxiliam, sempre deixam marcas muito boas nas crianças. Às vezes o caso é mais grave, já está muito estabelecido. Às vezes a atitude da família é muito pesada e a sensação é de que se faz de um lado e desfazem do outro. A família é mais poderosa do que o professor. Aí teria que ter um trabalho clínico. Então não é toda vez que se consegue transformar efetivamente, muitas vezes é preciso um encaminhamento. Agora, mesmo quando o professor pensa que não transformou, porque o aluno continua com a mesma atitude, ele já instaurou a dúvida e essa dúvida é a coisa melhor do mundo: será que eu sou mesmo tão burro quanto eu pensava?Além disso, ser afetivo é fundamental. Outras vezes é preciso ser mais do que afetivo. Tem criança que recua frente a qualquer toque. Ela está tão defendida que não agüenta o toque. O professor está vendo que é uma criança insegura! Uma simples palavra de encorajamento basta: é isso aí! Pronto. Esse é isso aí é a confiança para ela continuar fazendo. São pequenos detalhes, coisas simples. Chega uma hora que o aluno capitula: começa a andar, vai ficando mais seu amigo, está diferente. Quando ele percebe que está sendo “gostado” e que está começando a gostar, tem um momento de eu não posso, eu não mereço isso. Nesse momento ele apronta alguma coisa! E é importante que o professor saiba disso, porque se ele não estiver prevenido, desanima e fala: Está vendo? Não adianta. Já voltou a ser o que era! Não, nessa hora é que ele tem ser mais firme no positivo. É como o peixe que dá o último puxão… Segure a vara firme nessa hora que ele acaba capitulando. Se o professor desiste, ele volta a ter todas as atitudes que tinha antes. Às vezes é muito complicado, porque a família não colabora, não enxerga que a dinâmica que está usando não é saudável para o filho e o professor não pode mudar a dinâmica de cada família da sua classe…

Sempre tem um positivo, uma marca que o professor deixa naquela criança. O que eu poderia dizer para os professores é: Não vivam a onipotência, porque é sempre frustrante. Pensar que vocês vão dar conta de tudo, não vão! Ninguém é Super Homem nem Mulher Maravilha… mas também não vivam a impotência porque vocês podem muito, muito, muito por essas crianças. Isso é que é fundamental que vocês percebam, porque se vocês querem compreendê-los mesmo, olhem para si, a gente é tão igual… a gente faz tudo isso que eles fazem em certas situações da vida. Quantas vezes a gente tem medo de situações novas e põe a culpa no marido, no dinheiro, na distância, no filho e não vai, mas se você olhar de -verdade, de verdade mesmo você não foi porque você estava morrendo de medo de não dar conta daquela situação. A gente faz essas coisas também!

Esse tipo de estimulação dá resultados com adolescentes também?

Eu acho que a idade para receber esses estímulos é do zero aos 115 anos, mas é claro que quanto antes começar, melhor. Se, por exemplo, um adolescente já está com este tipo de atitude estabelecida dá para mudar, mas é sempre mais difícil. Quando é um adulto é mais trabalhoso ainda porque já tem mais coisas cristalizadas, mais defesas, mais tempo duvidando de si mesmo, mais tempo de confirmações. Os adolescentes são ainda extremamente vulneráveis a essa transformação. Eu atendo na clínica muitos adolescentes. Atualmente eu trabalho mais com adolescentes do que com crianças Com eles você pode ser mais direto porque ele tem condições de conversar e de elaborar, tem mais consciência. Para eles dá para falar: olha, não adianta. Eu sou especialista em inteligência, já fiz todos os testes em você. Você pode babar na minha frente, você engana o mundo menos a mim. Não pense que você vai me convencer de que é burro porque não vou acreditar. Quem que te colocou nesse trono?

Com relação às estratégias de sala de aula, tirando a do ditado, todas as outras eu usava dentro de sala de aula de 5ª série em diante.

Como mãe, em casa, também é a mesma coisa. Só que aí focando as situações de casa. Agora, tanto num caso como no outro, é como no futebol: marcação homem a homem. Em determinado dia seu filho pegou o prato e colocou na pia. Marque esse fato: Que coisa boa ter filho que ajuda, hein?Ponto. Isso significa: eu estou enxergando cada coisa que você faz de bom. Marcação de perto. Não é fazer grandes sermões e nem grandes discursos. É um comentário. Ele pôs o prato você Obrigado, filho. Ponto. É uma coisa que vai pingando, são doses homeopáticas. Ele deixou dez dias o quarto desarrumado. Um dia ele resolve arrumar. Mesmo que ele tenha jogado tudo dentro do armário, você marca que percebeu que ele arrumou o quarto. Vai pingando.

Esse medo de errar também pode fazer parte da vida do próprio professor porque, provavelmente, ele também viveu uma série de experiências e isto está dentro dele Por isso é importante que o professor também se trabalhe nesse sentido de ressignificar o erro Por isso eu disse anteriormente que o grande trabalho, a grande mudança é essa: dar um novo sentido ao erro. Se o professor conseguir olhar de outra maneira, essas atitudes passam a ser naturais e espontâneas. É muito bom quando se consegue mudar essa postura: a vida fica muito mais leve, a vontade de experimentar o novo é muito maior, vale a pena.

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